O papel das famílias na Doença Bipolar
2012-04-11
Dr. António Sampaio

A família é uma instituição eminentemente humana. Para o seu completo desenvolvimento, foram necessários uma consciência e um auto-controlo que nenhuma outra espécie conseguiu alcançar. A constituição da família foi essencial para a civilização e proporcionou um modelo para a organização social, anterior ao aparecimento do “estado”. A família originou-se da vitória do primado do amor sobre o primado da satisfação do desejo sexual. Uma vez controlado tal desejo, a família facilita a criatividade e vivência comunitária.

A família implica uma união voluntária com durabilidade suficiente para estabelecer uma coerência cultural e afectiva entre os pais e os filhos. Dessa maneira, a família nuclear, cria laços afectivos e de compromisso que deverão ser hierarquicamente, e legalmente, superiores a quaisquer outros que qualquer elemento estabeleça com outro da comunidade, até à formação de nova família. Contudo, hoje, a nova família não surge apenas quando um dos filhos se casa. Nas últimas décadas, temos assistido a mudanças significativas na estrutura familiar. A família tradicional sofreu sérias transformações. Modificações nas estruturas familiares são hoje cada vez mais frequentes. Como acontece após ocorrer o divórcio que, termina com a relação conjugal. O agregado familiar constituído por pais e filhos com uma organização temporo-espacial estável é hoje rara. De facto, a conceptualização “clássica” do ciclo de vida da família ( 1 - Casal sem filhos; 2 - Casal com filhos: crianças, adolescentes, adultos jovens; 3 - Casal novamente sem filhos a residir no mesmo espaço) é hoje, muito mais um conceito que uma realidade. Por outro lado, a coesão familiar é hoje muito diferente. A partilha de tempo e de espaço entre os vários elementos é hoje muito reduzida.

Acresce, que na sociedade europeia contemporânea, a mulher tem um papel social tão importante quanto o homem e a educação dos jovens está muito ligada à sua capacidade de interagir com outros elementos de dentro e de fora da comunidade. As fronteiras políticas, como as familiares, ficaram muito permeáveis. Delega-se nas escolas a responsabilidade da educação dos filhos e nas instituições de saúde a abordagem dos problemas de saúde. A ausência, impede a intimidade e desresponsabiliza.

A “sociedade de comunicação” que se tem vindo a desenvolver desde o pós-guerra, tem levado, nas últimas décadas, à criação de um “espaço hiperpúblico”. Criaram-se “salas de chat”, a Internet permitiu a ilusão do “parceiro ideal”, porque imaginário, ouvidor e confessor. A ligação social é hoje, muito mais ampla, mas também muito frágil. As famílias vêm os seus tempos de convívio monopolizados pelos meios de comunicação social e pela informática. De facto, os media apoderaram-se da comunicação e as antigas formas de comunicação social não são mais usadas. As famílias encontram-se mais isoladas e nucleares, só se encontrando em rituais, de forma pouco autêntica, num mimetismo da normalização mediatizada. Em grande medida, os media têm vindo a impor uma orientação externa da acção humana. Grande parte dos comportamentos humanos são determinados pelos media. Existe uma certa confusão entre os fenómenos reais e a sua representação, passando estes a ter, em grande parte, o valor da realidade. Assim, a emergência de fenómenos privados, como as alterações do comportamento, tendem a ser vistos como marginais, aberrantes e mesmo anti-sociais. Muitas vezes a reacção imediata do cônjuge do doente mental ainda jovem, é a fuga ao problema e a vontade de o “devolver” à família originária, como se esta fosse a única com solidez suficiente para “aguentar” tal fenómeno.

Por outro lado, a “sociedade da comunicação” impõe uma racionalidade dos comportamentos e os limites da normalidade do comportamento humano estão agora mais estreitos. Instalou-se de certa maneira, uma “ditadura da normalidade” que gera muito mais vezes o sentimento de exclusão.
Cada vez mais, é em famílias, muito nucleares ou monoparentais e com fraca coesão emocional que, o doente bipolar tem de encontrar apoios.

As mudanças de humor e a imprevisibilidade com que estas acontecem no doente bipolar, são provavelmente a maior fonte de stress na estrutura familiar. Tratando-se de um perturbação crónica, importa que a família desde logo se inteire do diagnostico, história natural da doença, do seu tratamento e prognóstico. De facto, o papel da família pode nesta situação, ser tão ou mais importante que a ajuda especializada, sendo certo que os casos de melhor evolução são os dos doentes que contam com um apoio familiar consistente.

O surgimento da doença causa inevitavelmente um desvio na evolução natural da estrutura familiar. Não raras vezes, o aparecimento da sintomatologia altera as relações de equilíbrio familiar de forma centrifuga, “apanhando” membros, fora do contexto familiar, e amigos. Como uma pedra que cai em águas serenas, a bipolaridade gera “ondas” que se estendem muito para além das “fronteiras” familiares. Frequentemente surgem conflitos com os colegas de trabalho e o desemprego surge demasiadas vezes. Os amigos, reequacionam a sua relação com a pessoa que se revelou bipolar. Por outro lado, os mitos existentes em relação á doença mental são, ainda hoje, suficientemente fortes para influenciarem de forma negativa todos os que são atingidos pela “onda centrifuga”. Geralmente, contudo, a família consegue esclarecer-se em relação ao diagnóstico e a partir daí, pode passar por fases de grande insegurança em relação à capacidade de resistir a este desafio, de culpabilidade e mesmo de dramatismo excessivos, chegando eventualmente a uma fase de aceitação da situação, conseguindo “eleger” o elemento que, com maior lucidez, consegue lidar com a pessoa doente. Assim, em cada família, irá surgir um elemento que se sentirá mais capaz de lidar com o doente bipolar. Tal papel não tem de caber necessariamente ao familiar legalmente mais próximo. De facto a “erupção” da doença pode acontecer numa família já muito fragilizada, levando à sua rotura. Neste caso pode acontecer, ser um cunhado, ou outro familiar, a tomar conta da situação e ser ele a ponte entre o doente e os técnicos de saúde mental.

Qualquer doença crónica que se instala num dos elementos de uma família, leva a que esta interrompa o seu desenvolvimento para se focar no elemento doente. Este fenómeno pode levar à cristalização de processos que estavam em fase evolutiva, e assim, à perpetuação de um estado de latência no desenvolvimento da estrutura familiar que, pode realmente ter consequências graves para todos os elementos, nomeadamente para o doente. Importa desde logo, que o médico que diagnostica a situação informe o doente e a família das possibilidades de prevenção e tratamento das fases de agudização. De facto, o doente bipolar não deve ser considerado nem pela família, nem por ele próprio, alguém marcado pelo infortúnio para quem são insuficientes todos os movimentos centrípetos dos que lhe são próximos. Antes, deve o doente ser responsabilizado pelo seu tratamento e pelo reforço dos movimentos de cumplicidade que lhe são oferecidos. Por isso mesmo, o doente e a família devem ser informados plenamente sobre a doença e devem estar conscientes que a doença bipolar é potencialmente uma perturbação muito grave e que representa risco de vida para o doente. Tal como uma diabetes não controlada por negligência do próprio doente, a facilitação em que muitas vezes o doente bipolar cai, deve ser denunciada pela sua família como desrespeito à sua própria pessoa e assim à família como um todo emocional. Por isso mesmo, o elemento “eleito” da família deve acompanhar o doente às consultas e intervir de forma sensata na informação a prestar ao clínico que acompanha o doente. A doença bipolar “instala-se” numa pessoa, mas afecta todos os elementos familiares. Estes elementos da família, podem muitas vezes precisar de ser ajudados a resolver sentimentos de impotência e de desespero que pertinentemente são levados a sentir. Só com informação e apoio é que a família do doente bipolar poderá ser útil no acompanhamento do doente e prevenir própria “distorção” na sua dinâmica natural. A procura de informação e a partilha de experiências, por parte de elementos ligados afectivamente ao doente, familiares ou não, é não só inteiramente legítima, como pertinente.

Tratando-se a doença bipolar de uma perturbação que leva a alterações graves no domínio dos afectos, é muito frequente que a família sinta, por um lado uma certa culpabilidade na tentativa da compreensão da situação e por outro uma certa frustração na sua tentativa de impor o bom-senso e na sua participação activa no tratamento. Assim, o principal papel da família do doente bipolar é o de criar um clima de confiança e de abertura. Tal empenhamento deve ser reforçado nos períodos inter-críticos. Na grande maioria das situações, não faz sentido considerar o doente como pessoa a desrespeitar ou ser entendida como “menor” no papel que lhe cabe na estrutura familiar. Pelo contrário, muitas vezes a doença mental, leva à denúncia de que existiam falhas graves na comunicação entre os membros da família. O aparecimento da doença pode e deve levar à correcção de tais falhas e não ao agravamento destas. É tão importante procurar ajuda especializada, quanto restaurar um clima de intimidade, de confiança básica, com a pessoa com doença bipolar. As famílias não devem considerar que a doença é uma “faceta”da pessoa, que só o psiquiatra pode abordar, compreender e tratar. Pelo contrário, a vivência quotidiana com o doente pode levar a família a reconhecer com maior perspicácia, os factores potencialmente desencadeantes e, com maior precocidade, os sinais de descompensação.
Contudo, é sensato considerar que a irritabilidade, a altivez, a turbulência e mesmo agressividade do doente em estado de mania, devem ser entendidas como fruto de um juízo patológico, devendo suscitar uma preocupação e não uma crítica à pessoa doente. Por outro lado, certas afirmações do doente quando está deprimido, devem ser alvo da maior atenção devendo o elemento familiar mais “próximo” manifestar interesse em aprofundar quão triste e desesperado o doente está. Tal manifestação de interesse, além de permitir ao doente sentir que se pode “abrir” e partilhar os seus receios mais “íntimos”, enfatiza a relação afectiva e alivia a solidão do doente. Só com tal investimento afectivo, é possível à família um papel activo no cumprimento da medicação. Só o restabelecimento de um diálogo aberto e empenhado permite à família aperceber-se da chegada das crises de modo útil.

Sendo um doente bipolar alguém com dificuldades na gestão dos afectos e emoções, este deve contar com uma família que tenha um papel estruturante e coerente muito mais alicerçado na intimidade e na cumplicidade, que na disciplina ou no autoritarismo.

BIBLIOGRAFIA:
L.-Strauss; K. Gough;M. Spirou. - A Família como Instituição - Res Editora, Lda.1977.
Sampaio, D. – A Perspectiva sistémica em Clínica geral – Revista portuguesa de Clínica Geral, 1988 – nº 32; 18-21
Trigueiros, A.; Santos, N. – Doença e Família – Família: Saúde e Doença. Instituto de Clínica geral da Zona Sul, 1994
Breton, P. – L’ utopie de la communication – Éditions La Découverte, 1992
Mondimore, F. – Bipolar Disorde. A guide for patients and families – The Johns Hopkins University Press, 2002.

António Sampaio
Psiquiatra Assistente graduado do H.J.M.
Mestre em Neurociências

 

 

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